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Aurora do trovador

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Barco que fora o barco do sentir deveras do trovador que cantara cousas que inda não eras Barco que fora o barco do disperso, do vão aonde trovar sobre a aurora resplandecia na canção Quantos mares fomos, quantos homens naufragámos? Se eles soubessem quem somos, o que só nós sonhámos Que seria hoje do barco, da canção? Dormiria onde o trovador? Ah,tanto pesar num coração, tanto p'ra sentir um pensador!... Álvaro Machado - 16h12 - 20-03-2016

Fragmento contemplativo

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Nada que correu E inda 'sta correndo Sinto como meu, Do eu que está desvanecendo Pois é no universo Que silêncio somos - Bruma contra bruma, pesar disperso De outro que outrora fomos Ah, fosse esse tédio assim! Lentamente destruindo Cada pedaço que em mim Vai subsistindo!... Leonard Sagè - 19h46 - 06-03-2016

Dias assim

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Ao bater suave da chuva no chão lentamente fui desintegrado desse nó que se me dava um arranhão tremendo no fado Saía-me da voz trémula o crer pleno e imbuído de certeza na verdade que fazia por ter em uma pequena luz acessa Mas a chuva depressa intensificou e as ruas imensas em mim o brilho se lhes depressa cessou E onde via esperança passou p'ra lugar sombrio assim como o coração que nada encontrou Álvaro Machado - 01:17 - 17-12-2015

Casas onde não trago memória

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Casas onde não trago memória fizeram de mim esta lembrança que hoje sou... Toda a vontade de querer se tornou inglória, de mim se me distanciou... Aquele calor vindo de ternura de mim não resta hoje sinal senão o de dor sem cura E aqueles sorrisos, aquelas gargalhadas, Onde os pensei reais e verdadeiros Não passaram de projecções falhadas!.. Essa vida onde, por sorte e infortúnio, havia sobrevivido? Não queiras uma; o sol jamais cobria meu semblante, as ruas tornavam-se naquilo p'ra que tinha desaparecido, e eu deixei-me ir, desvairado deambulante... Álvaro Machado - 22:21 - 12-12-2015

Naus à escuridão

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Queria que todas naus começassem a navegar... Que cidades inteiras - todas as luzes - sucumbissem E mergulhássemos em plena escuridão... Os lobos viriam das montanhas e os sinos alarmar-nos-iam - Também se vive lá no cimo!... Fossemos todos a mesma nau e a mesma viagem, Sem que a luz iluminasse a não ser em nós mesmos, E o medo que paira sobre o ar pesado do nosso quotidiano, As dúvidas, as preces, tudo isso Seria nada no porvir!... Tenho receio que isto seja apenas uma alucinação Do meu interior nefasto e torpe... E tenho por tantas incertezas o naufrágio desta nau no pensar Que me dói a alma, e se as águas agitam, pelo pouco que seja, Especulo tão-só!... Deus meu, não pode afinal o universo ser como eu quero? Porquê? Porque mo atiras tão cruelmente para o precipício de um poema? Creio que talvez, ou talvez não, quem sabe!, nunca vais ouvir tamanha confissão Nem escutar devidamente o pobre coitado que desespera, vão e inútil, Por uma breve certeza!... Álvaro Machado - 23:04 - 07...

Projecção de um nefasto subsistir

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Julgo que sou. Não sei se realmente sou. Julgando-me posso não ser, Sendo outro que não este. Como tudo na vida e que existe - física, mental ou oniricamente -  Pode correr como julgámos correr e existir E assim ser para nós. Pode até nada ser disso que supomos Como real e despido de projecções ridículas e irreais; Pode ser, quem sabe, a vida uma roda gigante e nós sermos Movimento contra movimento. Ser e supor chega-nos às mãos repentinamente: quando nascemos, sem consciência. Depois, remetendo-o para o tempo, o nosso tempo, Haveremos de nada ser, então? Álvaro Machado -17:05 - 22-11-2015

Decapitação solene

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Do cimo, não sei, perto do cimo, não, nada disso! Qualquer cousa, ali, acolá, mas no cimo não quero! Oiçam, calem-se, mexam-se; a cidade saí p'ra rua não saindo! Entontecido, enternecido, quieto, fiel à morte, mas nunca vivo! Se me revolto, já não me revolto, tudo quis e agora nada mais... Parem! Dai-me a decapitação, senhores! Só eu é que vejo, não, não acredito!  Álvaro Machado - 03h06 - 17-11-2015