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Poeta dramático.

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Sobre a lua ainda não aparecida poiso meu prolixo fragmento e penso se será merecida a dor do meu sentimento... Momentos após quase esqueço. Indecisão? É tremenda, a linha é excessivamente ténue p'ra que possais pensar dela ao avesso, dados a ela artística e fugazmente... Tão-só respirais; nunca ireis saber como sabe o respirar na alma, repleta de oníricas escadarias... Viver é-vos esperançosamente tido pela inconsciência do vosso ser sem catedrais, sem palácios majestosos, sem covardias, sem viagens exaustivas à consciência onde a lua nunca veio... Afinal, sou apenas um poeta dramático. Álvaro Machado - 19h27 - 08-7-2016

Do desassossego eleito

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Cada dia que passe é menos sol que se me esbate na fronte. Cada dia que passe sou-me menos, excepto do ser menos que sou cada vez mais. Cada dia, do universo extensivamente cansado, a percepção do afecto desvanece... Guardo, enfim, das memórias que a noite faz recordar (e devidamente comover) um ou outro episódio mais caricato, talvez de uma jantar onde fomos qualquer cousa, talvez dos sonetos escritos sobre o asfalto... Tu aí, viajante submisso, onde ousas ir? À descoberta do mundo? Não o faças; ignora o que vives, esquece os sonhos, vive-os somente aí, nesse estado de alma... Verás, como eu, que não há nada ali. É tudo um grande vazio. Nada queiras que não esteja já em ti, não anseies abraçar cousas que serão veneno nem despertes em ti a paixão que te fará cegar do teu sonho... Do poder - e do poder inda mais afincadamente - afasta-te! E serás assim o poeta que escreve e rasga do caderno inteiras confissões mentais, que num êxtase momentâneo se enfurece com a chuv...

Decapitação solene

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Do cimo, não sei, perto do cimo, não, nada disso! Qualquer cousa, ali, acolá, mas no cimo não quero! Oiçam, calem-se, mexam-se; a cidade saí p'ra rua não saindo! Entontecido, enternecido, quieto, fiel à morte, mas nunca vivo! Se me revolto, já não me revolto, tudo quis e agora nada mais... Parem! Dai-me a decapitação, senhores! Só eu é que vejo, não, não acredito!  Álvaro Machado - 03h06 - 17-11-2015

Viagem no sonho

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Ébriamente sonho. E esqueço-me de ser. Serei um sentir enfadonho Cansado de sobreviver? Especulo sobre os deuses, Dizem-me de louco nos arredores. Queira eu mais nuances Da vida restam só sofredores. Distúrbio complexo e psíquico De onda em onda remando O meu amor metafísico É eterno comigo ao comando. Mas paro. Querer? Ah, mesmo no querendo já Se me destrono de vencer Esse remar na orla vã.. Álvaro Machado - 03:17 - 01-11-2015

Herege sóbrio

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Os pequenos passos que dou Num obscuro ir se me pesam; Parece que de mim não sou E os sonhos se me cessam... O breve respirar defronte É já o universo inteiro a pesar; Vã e solene, feliz que encontre, A vida sóbria sem se embriagar... Dize o mestre aos estatuários da poesia, Aos que lhe corrói o lento deambular, Que alto é quem se revê na heresia De nunca em si acreditar... Álvaro Machado - 12h41 - 31-10-2015

Êxtase inócuo

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Às escuras - pleno e só - Onde a onda vem erradamente Escorre a mágoa, e o breve espaço é Monótono e indiferente. Não hei-de querer nada. Querer é uma intima cobardia. Essa terra além é onde esperançada Tarda a luz do dia. Por mais que veja, que queira ver, Defronte é longínqua e fria Distante como quem nunca vai saber O quão feliz eu seria!... Álvaro Machado - 01h45 - 10-10-2015

o mar destruído

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onde está aquele mar da esperança, frenético, independente do céu? onde estão aquelas ondas em quem tanto questionávamos pelo universo? não ouves? ah, eu oiço-o como que ainda fosse hoje: o respirar absurdo do coração envolto nas estrelas, imbuído de sonhos, batendo mais e mais, na ânsia de que o sonho se torne lei dos poetas... mas eu não sei onde estás, não te oiço... estou sentado, velho, esquecido, e tudo, em volta, se tornou difícil para mim... Álvaro Machado - 01:30 - 14-08-2015

Ébria fuga

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Com o copo de vinho que tenho defronte desfaço-me da realidade como as crianças fazem sem o saber. Assim, tenho só um pensar cru e imaculado, a certeza de que o belo me contagia, que sou um pobre feliz... Ah, e não o pude ser antes... Antes atravessaram-me os pensamentos mais torpes, a escuridão plena dos meus maiores medos... Não sabia ser. Tudo era imenso, disperso, desfragmentado... Não sabia não pensar quando me via sozinho na berma da estrada... E Caeiro era tudo para mim. Com ele era-me livre... Mas havia sempre a sensação que a vida é uma nau sem porto onde possa atracar, aonde a dor nunca cessaria, e que em mim isso estava cravado no coração para todo o sempre. O vinho acaba por me levar além da realidade doente e eu sou uma criança muito pequena cheios de sonhos por concretizar. Álvaro Machado - 16:03 - 27-07-2015

Onírico papel

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Dos sonhos que construo à escuridão de onde me sustenho p'ra toda a vida vou subindo cada degrau vão até que a chuva lá fora se torna pressentida e no horizonte surge um clarão... Surge não sei de onde, não sei porquê... Qualquer coisa de mundano ergueu um homem que nada vê onde tudo vem em seu engano e por isso em nada crê... Rasgo o papel. Os versos morrem-me ainda no sangue. E no meio da mágoa onde um poeta se há-de esconder escurece, perdem-se os sentidos, e exangue vejo a lua do outro lado do cais a desaparecer e com ela também a mim deixarão de ver... Álvaro Machado - 03:01 - 30-05-2015

memória e raiz

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banalmente, no acaso do sistema solar, sei de mim e sei o que sou... sou um triste que pela noite de luar dos universos dispersou... sou uma dor sem cura que na sombra se inquietou à espera de uma brisa que na alma soasse a paz, a plenitude..., mas deus sempre negou que minha alma assim sonhasse… e assim me vou - ouvindo esta ópera distante, vivenciando estes leves passos pessoanos até ao esquecimento arrepiante que nos vem com o passar dos anos… adeus: mas leve e seguro. é assim que me vou. Álvaro Machado - 00:23 - 25-05-2015

Incompreensão racional

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Em um sonho de me não compreender Dou voltas sem as dar À volta de um novo ser Acabado de encontrar. De nome e tempo dispersos Soa-me como que conhecido Vem de longe, de longínquos versos - Foi assim que senti ter aparecido. No ser e não-ser da minha alma doente Em rodopios lancinantes Tudo o que me é alheio, tão como comovente, É-me mais do que dantes... Não sei se é o Mondego distante Ou a proximidade com o Tejo Em que aos poucos um volante Se me ergue um bravo ansejo!... Álvaro Machado - 11.50 - 09-05-2015

templários do tempo

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olhando, e fora da rota do sonho, esperar uma brisa ténue dos lados é um cinismo do deus enfadonho para os não amados... e uma gota caiu. o decurso do tempo desvaneceu. lá fora o homem sumiu do próprio sonho que ergueu... para assim, templários do pesar, porem à chuva o seu coração; de que vale o convicto acreditar se tudo move em volta de maldição? Álvaro Machado - 01:43 - 27-03-2015

Maestro Hades

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Raie-me de novo a consciência e fuja de mim o cismo contínuo de que virá morte entre o sonho e a realidade onde em permeio hei-de eu estar... Ocultai-me a praia submissa onde desaguam brutalmente todas as almas que se opuseram à inconsciência... Solte-me um canto cheio de mim em este preciso momento!... Deixai-me erguer do medo que não me deixa ir avante mar!... Pois no fundo em mim detinha uma inocente crença na eterna vida, no eterno deleite imune à tragédia clássica ...

Testamento sanguíneo

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No fundo de um corredor, Pelo meio de uma vitrina fusca, Um só coração sente a dor A entrar impiedosa e brusca. Um vidro ténue, partido e disperso pelo chão, Soa-me com um desaconchego - Quão inevitável me é a solidão Diante deste obscuro desassossego ? Que o frio e o luar se sintam Com toda a intensidade ardente!... E onde a alegria e a fronte se distanciam, Estática e perplexa 'sta minha alma comovente. Álvaro Machado - 23:05 - 06 - 12 - 2014

Antes e após

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Depois do poente ninguém está a navegar. Depois do poente só estou eu, É noite, e um silêncio pesado prevaleceu Sobre o inócuo luar. Antes do poente, tudo era justo e real - Cada criança, cada som que por fim nos cruzava com razão de ser… Antes da tragédia, depois da noite havia de vir o alvorecer E os copos de vinho e as piruetas faziam disto um festival… (Quando nos juntávamos!...) Há-de ir longínqua, esta saudade, Pois tudo passa, e nós lá também vamos, Com a idade. Será fim, será começo, Eu o não sei… Levo só comigo aquilo que tanto cantei Deste pós-poente que inda nem conheço…~ Álvaro Machado - 00:36 - 21-04-2014

Consciência ampla

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Vou estar aqui sentado Até que tudo seja vão e inútil. Não me interessa. Não tenho medo nenhum de nada. Nem mesmo do fim. Ai, sei lá, que de tanta dor que eu trago Acho que já não não vale a pena... Estarei, então, aqui - No meio das coisas, mas longe do meio; Só sentado, no relento da saudade, Para lá do mundo, para lá de tudo, Entre a calma e a plenitude Acima de nós. E sentado, do fundo amargo e doloroso da vida, Paro: afinal não existo... Álvaro Machado - 22:30 - 15-04-2014

Lúcido nocturno

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Noite adentro o vento passa, Da lua no alto sentido Suspira o coração pela vida, Por aí se sentir vivo. Do lado de fora, ilumina-se a noite, Tudo é tão puro e tão forte No ser livre e poder contemplar O sentido de aqui estar... Sou um pequeno ponto entre vácuo Ígneo que não se dá por vencido Crê no orbe, no desconhecido Na origem de mim. Sinto-me eu próprio uma noite fria, Um luar visto, mas esquecido; Apenas uma paisagem que retida ficara Sem crença, sem esperança, sem nada. Álvaro Machado – 19:19 – 22-02-2014

Frustração.

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Não me parece que consiga Dar uma rota à minha vida Nem achar uma nau e um destino Que possa percorrer. Cada vez que me ergo Para saciar o horizonte indefinido Me deixam a cair num precipício fundo e obscuro Onde ninguém ouve este coração dócil Que pede só que o salvem... Forças as não encontro Debaixo do manto de solidão e de medo Que vive dentro de mim. Demasiada frustração mágoa saudade dor Para fechar os olhos ao presente... Então acordo no meio Em uma praia lusitana perdida no tempo Preso ao cais com um peso na alma E não me posso lançar ao mar! Álvaro Machado - 03:19 - 20-01-2013

Real, sonho.

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Não tenho nenhuma esperança. A luz sumiu, tudo está deserto. E se eu sinto uma cavidade de mágoa profunda no coração É porque mereço, mereço tudo isto. Apagou-se-me a lucidez, interceptou-se-me esta alucinação Que me faz sonhar que não existe! Que me faz querer o impossível! Que me faz chorar por quem não conheço! Será que mereço? Vou à janela, estendo os braços para que me vislumbrem, Mas não tenho ninguém para me socorrer, falhei a sorte do destino... Como isso pesa, como cria um ferida profunda no coração, como deita abaixo, Como me faz querer desaparecer... Onde está Deus? Está em qualquer lugar, nem sei se ele existe... Passei tantos anos da minha vida a velar por tudo, mas sobretudo por si. Mas os sinais que tenho recebido - se os recebo realmente - são de um desassossego terrível, De um inferno, de um cismo que destrói toda a flor que floresce. Cadáver. Perdi a vontade de me ser. Viver... Sonhar...  Álvaro Machado - 17:58 - 05-01-2014

Desfecho final

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Há uma tempestade fortíssima a Sul. Do meu quarto, pressinto-a e sei qual será o seu rumo. Virá em minha direcção, levará tudo à sua frente - Serão arrastados sentimentos para fora da região, Perder-se-ão pelo infinito do universo, deixará de sentir o coração… Encerro as janelas do quarto e cerro a cortina Para me fazer esquecer que algo trágico está próximo. As nuvens, ainda antes de eu desviar os olhos do horizonte, Escureceram de uma cor mais sombria do que o sombrio. E lembro-me que ficara numa inconsolável tristeza… Levou-me tudo. Tudo o que tinha me foi levado. E não tive força para reagir; eram as forças do destino a vencerem-me. Deus não existe. Porque, se existisse, havia aparecido naquele instante, Impedia que o amor fosse quebrado por uma tempestade, Impedia que a minha vida, a partir desse momento, passasse a não significar nada. E agora não há motivo nenhum no mundo inteiro que me faça crer. Não acredito em nada – senão na morte, senão que todos somos...