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Nota final

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Encaro o suicídio Como inevitável e como única certeza Que entre os largos devaneios distantes Meu coração suporta... Sentado, debruçado sobre qualquer coisa de natural, Encaro a frio a realidade que a meus olhos pesa e persiste. Depois caio, porque não sou mais nada Senão uma queda permanente. E a sociedade que por dentro me corrói e se me afasta? Que é do vadio que no cimo do mundo se escondeu, Se encovardou de olhar de frente Para a Dor e para a Morte? Coitado. Álvaro de Campos, coitado de ti, que ninguém chorou essa dor tão fúnebre!... Coitado do que és, uma sobriedade desajustada às leis do universo!... E do nada que não existe, somos nós e assim permanecemos Até ao fim do largo oceano!...

sem desfecho

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para mim estar nessa multidão é como se não existisse. cada passo e cada suspiro meu é uma tremenda ilusão. é cair de rastos no chão sem me conseguir levantar mais. são as iluminações e os barulhos, eles confundem-me; e o corpo e a mente perdem-se horas a fio, sem nunca mais se encontrarem... caminho, porém. lado a lado com a lua, eu caminho sozinho... p'ra onde? p'ra lado nenhum... lado nenhum, pois; então é tudo um vácuo e eu sentir não vos importa coisa alguma... é mais um que na sombra se mexe e na sombra se perde até à eternidade do ser. é só mais um com fantasmas e receios, com cadafalsos e mentiras entre eles... que me importa viver? viver assim é não viver assim. pouca coisa resta, porque eu por dentro morro em um requiem de obscuridade ébria... estarmos juntos no amanhecer? mas que amanhecer nos há-de juntar se nós fomos feitos para estar sós, longínquos, sem sabermos da existência um do outro, ainda que saibamos perfeitamente que...

Consciência ampla

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Vou estar aqui sentado Até que tudo seja vão e inútil. Não me interessa. Não tenho medo nenhum de nada. Nem mesmo do fim. Ai, sei lá, que de tanta dor que eu trago Acho que já não não vale a pena... Estarei, então, aqui - No meio das coisas, mas longe do meio; Só sentado, no relento da saudade, Para lá do mundo, para lá de tudo, Entre a calma e a plenitude Acima de nós. E sentado, do fundo amargo e doloroso da vida, Paro: afinal não existo... Álvaro Machado - 22:30 - 15-04-2014

Universo que espera

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Sei que tudo está à minha espera. Que o universo está no infinito Da minha voz e dos meus sonhos E vai adiante, a multiplicar-se O sentimento que é grande Como um Deus. Por mim a força do mar E a luz do astro-rei Se concentram, Brotam em força transcendente Pronta a derrotar o conformismo Que sustem o mundo. Irei escrever os versos sublimes Que o meu coração tanto reclama. Tudo me espera. O mundo inteiro! Enchem-se as praças de sensações, Aves que pelo céu voam alegres, Ruídos dos carros deste século Sem chama. Mas eu subo a esta mesa de madeira E digo-vos que este sou eu, Sem medo nenhum da verdade; E sei ter a consciência que a morte é um desfecho Do mais natural pensamento concebido por Deus. Aqui em cima sou livre. Tenho a alma inavegável. E os sonhos vão conquistar o mundo. Ele espera por mim! Álvaro Machado  - 23:19 - 18-03-2014

Desejo concreto

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como o mestre, Alberto Caeiro. Numa longa espera, que nunca será vinda, Levei-me até a esta rocha, a esta paisagem do ser Chamada pensamento sublime. E agora dou por mim aqui - como? não sei... Dizem que isto é o paraíso, o jardim do éden É o vento e o sol que agora sinto que me fazem pensar Leve como esta brisa que quase fala, que fala mesmo! E esses tantos caminhos não são senão o abismo! Aqui esqueço. Sou-me na essência dos versos, Invoco Caeiro e deixo fluir com naturalidade Cada palavra que acompanha estes raios solares, Esta erva verde, este escorrer de água do rio... E peço no fundo de mim: «por favor, deixa-me ficar aqui. Não posso querer mais do que aquilo que aqui me dás: Liberdade, honestidade, plenitude... das-me a verdade das verdades. Por favor, daqui não quero sair.» Mas perdeu-se-me o desejo, esvaiu-se-me o sangue, gelou-se-me o coração... E veio logo atrás, a perseguir-me, o som dos carros, as vozes entontecidas, a realidade maldita Que me ...

Sociedade.

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Não. Vocês não sabem quem sou. Não sabem nada sobre mim. Vocês são a sociedade, são uma paisagem distante Por onde ninguém atravessou. Todo o mal e inveja vislumbrado nos rostos, Pouco a pouco vejo que são todos iguais, o mesmo! Sabem lá o que é ter cismo, Contemplar o sentido da vida, esperar que ela cante A melodia dos nossos dias, o nosso fim. Afinal, que sou, que quero, por onde vou? Arrasto-me de um precipício Para um recanto com janelas abertas; Pensarei assim, mais calmo, nas novas descobertas Deste meu novo vício (Ó meu coração!) Desta minha nova solidão. Álvaro Machado - 15:10 - 01-02-2014

Anárquica noite

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Não me obriguem; porque se obrigarem eu não o faço - Para mim dever há só um: ouvir esta noite assombrosa Por onde passa o vento frenético, de cólera impiedosa, E a escuridão é o caminho que faço e desfaço No mesmo instante, no mesmo espaço. Neste momento de vida, talvez precoce e imaturo, O oceano empurra para a mesma direcção - Que outros vão percorrendo em vão, Outros, esse tais, que da vida soltam inertemente revolução - De caminhos que para mim não procuro. Só esta noite me conhece, só este vento Intercepta a voz, o verso, a inquietação em lamento Com que eu carrego de mão ao peito, Por um sentimento trágico e sem encanto. De fora? Pode brilhar, e pode até iludir. Nunca disse que mais ilusões não estivessem para vir. Só que ilusões não passam de ilusões, e esta noite existe Como o vento e a minha alma. (Ó alma, por que me fugiste?) Álvaro Machado – 23:14 – 29-04-2013

Vozes inúteis

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Não os conheço; não existem. E, ainda assim, vozes encharcam-me De os pensar, se os penso, com histórias Inúteis tanto como quem as conta. São a paisagem intemporal dos tempos derrotados, As esperanças sem necessidade de as realizar, Os sonhos fictícios de os achar realizáveis estupidamente! Se sonho, também? Sonho e vivo de sonhos que vou sonhando! Não os sonho só porque tive de adormecer e porque é bom - Nem tudo o que sonho é enquanto estou a dormir, nem tudo quanto sonho É enquanto fecho os olhos... - Eu sonho-os sobre a adversidade real e amálgama da vida! Não existem; não os conheço. Se não existem são felizes e não pesam, Não têm de escolher entre o bem e o mal Ou ficar no meio a pender para um deles. A vida é doer Só ao viver E enquanto os achar na inexistência Não os quero conhecer!... Álvaro Machado – 03:07 – 01-04-2013

Sóbrio

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Quando há amor e a sociedade não aceita Instantaneamente, as portas que abram Somente abrir-se-ão para os que amam E não querem saber quem os rejeita O resto é toxinas pelo ar balançando Réstia de fundamentos sem fundamentação, Preenchendo às ruas mera especulação Do nada que vai sendo E supondo que se alastra a Afrodite - Deusa do Amor e da sensação que é amor - Que não passe mais sensação de horror À poesia que a cite. Os burgueses contemporâneos, que nunca cessam, Levantarão mil injúrias e infâmias sem fundamento; E ao fundo deste fundo sentimento As brisas sabem e nunca erram, Que por mais que contestem da razão do seu amor, Sendo seu propósito a desgraça e o sofrimento, Nunca será extinto por ser real sentimento E, porventura, sempre continuará... Álvaro Machado – 20:46 – 18-10-2012