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Tarde dos bons costumes

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Não sei, mas acho que estou perdido. Para mim, todas as pessoas por quem me cruzo, Todo o lado de lá das ruas e dos passeios, Todo o pôr-do-sol não tem sentido. Os meus dias são devaneios E dou-lhes pouco uso. Uma vez, lembro-me perfeitamente, Encostei-me à sombra a ver os animais. Larguei os costumes, as regras que deus me deu, Naquele instante fiquei tão contente Que, com franqueza, não sei o que aconteceu. Foi bom e desapareceu cedo demais. As mãos com que lavo o meu rosto E a cara em que me vejo são o meu desgosto. Eu queria ser quem sou e não quem estou a ser, Queria arremessar o jornal e as teorias que nada valem, E fugir, fugir é a viagem Que sozinho terei de fazer. Ó alma de ventos tristes, qual é o caminho a seguir? Dá-me alguma coisa com sentido e que possa sentir; Devolve-me a tarde que me deu prazer, Que agora as tardes são de ócio e sem esperança E o sol que lhes alenta sempre cansa. (Só Deus sabe o que está a acontecer!) Álvaro Machado – 23...

Terrível de viajar

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Terrível é não sentir Que o mundo me perdeu... Ir como quem esqueceu De viver antes de partir... E eriça-me olhar Monalisa , Subitamente. Focam-me os olhos de cara lisa E quase morro repentinamente. Talvez o génio italiano Sonha-se com aquele olhar; Talvez fosse a si próprio retractar Com um rosto mais plano. E viajo nesta quase madrugada Até a Itália renascentista. (Revejo-me nesta época por mim sonhada) E viajo comigo um idealista, Que vai indo e procurando Por entre o medo de existir As dúvidas continuam-lhe cismando Se deus há-de mesmo vir... Álvaro Machado – 00:05 – 01-02-2013

Elementos

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É o sol, é sol! - és tu quem mo diz, Quando te vejo estendida pelo riacho Como uma magistral nuvem clara Cheia de pureza inerente a si. É o sol, é o meu encanto! O escorrer de água submisso: eu! E se lhe intrometem nuvens tenebrosas, O que é de mim é chuva tempestuosa! É o mar, é o mar! - és tu quem mo diz, Quando de uma falésia se te vejo o rosto Esbranquiçado e o vestido transparente Falésia abaixo como em sonho... É o mar, é a minha perfeição! Ondas enfurecidas pela devoção a mim! Navios e pessoas arrastadas pelas águas Inerentes a mim! Fui tudo isso! - Uma figura que encarnou a natureza, Os seus elementos; uma figura... Álvaro Machado – 12:54 – 26-01-2013

Encontro

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Procura na saudade um termo Que não vejas, que não toques, E que lhe sintas a forma do rosto Que nunca mais tocarás Acha na saudade o resto do corpo Que não recordas (será que o recordas?) E sente-lhe a ternura, o encanto que tanto adoras. Ele nunca mais voltará. A carta perde-se de tanto esperar - Uma das tantas que escrevi durante anos a fio - Por quem não sabe onde me encontrar. Quem escreveu soube de sua perdição Muito antes de o procurarem - A si e a sua solidão. Álvaro Machado - 21:14 - 09-01-2013

homens e deus

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a maior imperfeição do mundo somos nós: homens. o tal navio que parte de um porto desconhecido, e viaja adiante - ao lugar sombrio, à morte prematura. desvendamos apenas o mistério experimentado, sentimo-nos como um falhanço criado à maneira de deus - o altivo, o divino - e a mágoa de todos nós somos nós próprios (e o nosso corpo); mas quem paga não é o que arrastamos na terra, é o que pensamos no universo! são as coisas impossíveis! as partes exógenas à raça! é o brilho do sol e a intensidade da lua! é o mar a meio caminho e o porto enevoado! e é o amor de alma e o desejo de outro mundo! os desejos do homem são, todos eles, impossibilidades. ah porque a vida cansa, faz sofrer e enche de ansiedades desapropriadas à compreensão... ninguém sabe um porquê ou uma razão, ninguém acha um sentido ou uma explicação... há vida, e isso sei que há; há campos verdes e pássaros a voar; há nuvens às escuras e sóis às escondidas; há a humanidade toda, e há a sagrada escritura do artefacto que deus ...

Estendida sobre o Chiado

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De cabelos lisos e de olhos magoados, Vejo-a estendida sobre as ruas do Chiado. Nem sei de quem se trata, mas estou encantado Por seus gestos nobres e doirados Escorrega-se-lhe café no vestido branco, E o empregado ocorre-lhe, manco, Como se tratado fosse de um cavaleiro Ele acudiu-lhe o dia inteiro Tal finura de gesto excede o inteligível, Nada faz sentido ainda que literalmente Sentido seja sentido que mente!... Tal fronte torna-se arduamente inacessível, E ninguém lhe consegue adivinhar Razão de ser para o seu olhar!... Álvaro Machado – 22:46 – 18-12-2012