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Ébria fuga

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Com o copo de vinho que tenho defronte desfaço-me da realidade como as crianças fazem sem o saber. Assim, tenho só um pensar cru e imaculado, a certeza de que o belo me contagia, que sou um pobre feliz... Ah, e não o pude ser antes... Antes atravessaram-me os pensamentos mais torpes, a escuridão plena dos meus maiores medos... Não sabia ser. Tudo era imenso, disperso, desfragmentado... Não sabia não pensar quando me via sozinho na berma da estrada... E Caeiro era tudo para mim. Com ele era-me livre... Mas havia sempre a sensação que a vida é uma nau sem porto onde possa atracar, aonde a dor nunca cessaria, e que em mim isso estava cravado no coração para todo o sempre. O vinho acaba por me levar além da realidade doente e eu sou uma criança muito pequena cheios de sonhos por concretizar. Álvaro Machado - 16:03 - 27-07-2015

Antes e após

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Depois do poente ninguém está a navegar. Depois do poente só estou eu, É noite, e um silêncio pesado prevaleceu Sobre o inócuo luar. Antes do poente, tudo era justo e real - Cada criança, cada som que por fim nos cruzava com razão de ser… Antes da tragédia, depois da noite havia de vir o alvorecer E os copos de vinho e as piruetas faziam disto um festival… (Quando nos juntávamos!...) Há-de ir longínqua, esta saudade, Pois tudo passa, e nós lá também vamos, Com a idade. Será fim, será começo, Eu o não sei… Levo só comigo aquilo que tanto cantei Deste pós-poente que inda nem conheço…~ Álvaro Machado - 00:36 - 21-04-2014

Rompante

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Quis o não no meu sim, Encobri que a raiz é um facho obscuro Parece luz sem ser luz. Quis ter-me por vil E achei que por único assim Pertencia à noite de não pertencer. Na fogueira vã da tristeza Como se a força divina me chama-se Eu aqueci as mãos por egoísmo E deitei-me ao comprido dos versos Numa intemporal passagem de sentimentos Se eles existem, no entanto. Nada, de ninguém, disse eu Numa ténue conquista tida Achava eu, nunca tendo conquistado. Na sociedade tudo é distorcido, Ruas, caminhos, sensações... Porquê o ter tanto sentido Em cada passo, em todas as acções? Prefiro morrer distante e saber bem O que fiz e o que sou, saber de pronto Que a morte vem. Prefiro ter a verdade e escrevê-la Nunca esquecer tudo aquilo que eu sou Sem saber perfeitamente nada. Álvaro Machado – 00:15 – 27-02-2014

Dirigido ao céu

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Levanto-me, seguro pela mão Com inocência acolho a ilusão Afincadamente sou uma alma Que te pede paz, que te pede perdão. Acho que sou feliz, em momentos. Acho que posso ser um ser comum... Mas o rolar dos acontecimentos Prova-me que não consigo ser qualquer um... E tu, figura do além, Porque me fazes sofrer como ninguém? Atiras-me sempre para o chão. Deixas-me confuso, deixas-me ser vão, Andar pela rua perdido Ao sabor do vento entristecido... Tão cruel, tão real é o que me tem acontecido Um vazio no coração imbuído de escuridão É aquilo que me dás, não aquilo que tenho pedido. Peço-te paz, concedes-me mágoa, dor, solidão. E eu não te fiz mal, tornei-me uma hora do ocasião, (Onde jaz?) talvez nem tivesse vivido... Não adianta vir a ilusão. À deriva sou-me. Super-vadio que merece pensar Somente num recanto do mundo, contemplar Coisas naturais como ser feliz, mas na distância, que agora vou-me Refugiar na dor que só eu sei interpretar. À deriva sou-me, à d...

Real, sonho.

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Não tenho nenhuma esperança. A luz sumiu, tudo está deserto. E se eu sinto uma cavidade de mágoa profunda no coração É porque mereço, mereço tudo isto. Apagou-se-me a lucidez, interceptou-se-me esta alucinação Que me faz sonhar que não existe! Que me faz querer o impossível! Que me faz chorar por quem não conheço! Será que mereço? Vou à janela, estendo os braços para que me vislumbrem, Mas não tenho ninguém para me socorrer, falhei a sorte do destino... Como isso pesa, como cria um ferida profunda no coração, como deita abaixo, Como me faz querer desaparecer... Onde está Deus? Está em qualquer lugar, nem sei se ele existe... Passei tantos anos da minha vida a velar por tudo, mas sobretudo por si. Mas os sinais que tenho recebido - se os recebo realmente - são de um desassossego terrível, De um inferno, de um cismo que destrói toda a flor que floresce. Cadáver. Perdi a vontade de me ser. Viver... Sonhar...  Álvaro Machado - 17:58 - 05-01-2014

Concebível realidade

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Sei que os sonhos detêm o que a realidade desconhece. Por mais que na tormenta rota tomada As interceptem figuras demoníacas oriundas do mito Quem sonha sempre alcança. O meu estado leva-me a descortinar talvez o impossível à percepção da realidade. Porquê? Porquê o circundar ébrio dos planetas em minha consciência? Porquê a irrealidade imposta e concebida como a nossa vida? Não sei nada... Não sei como se ama, não sei porque se ama... Se amar nos concebe um amor eterno, E se realmente o carente sente saudade, Porque não nos amamos em conjunto? A minha realidade é sonho. Sempre foi. Tenho pouco por que me agarrar à realidade, esta de momento. Prefiro ser sempre o deambulante poeta que viveu na cave do pensamento E que descortinou sempre outro mundo. Álvaro Machado - 13:56 - 10-10-2013

XV

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Estou sem a realidade que a todos faz mover. Perdi todos os fundamentos para que viver. O bom todo é pequeno e pouco espaçoso Para quem, como eu, da vida se faz ocioso. Sou um jogador de xadrez em viagem E a olhar p’ra vida com a certa distância (Farei xeque-mate na próxima instância) Até ganhar coragem. A embriaguez permite-me sonhar, Ir para além, tocar noutras dimensões, Ter novas sensações!... Afinal, em quem tencionamos amar? Viagens atribuladas, grandes embarcações? Erguer-nos das emoções?... Álvaro Machado - 14h20 - 21-07-2013

Companheiros

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Sentai-vos a meu lado E vamos todos sonhar Mais do que esta noite Está a dar. O sonho em nós se ergue - Por uma passagem entre mundos – E se divide em dois lados descontínuos e alheios: O lado esquerdo é composto Por uma penumbra e um manto, Tudo que lá entra de lá já não sai E tem a orquestra de Mozart . O lado direito é mais complexo. É d’uma constituição longínqua e fria. O quarto minguante tem o mar esquecido E os navegadores derramam o seu sangue… E o lado meu está na poesia, Na minha vida desinteressada por vocês, Por tudo que é tal como é E não se pode converter ao sonho. Sentai-vos a meu lado, companheiros da eternidade. Vamos ser mais que a vida quis que fôssemos, Vamos com a nossa alma sonhos erguer E construir verdadeiras catedrais! Álvaro Machado – 00h00 – 16-07-2013

Céus…

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Pinto com as cores vivas O céu morto Se me ouso a desobedecer A vontade de Deus. Para mim viver é muito mais Do que imagens... As aparências cheias de nada É a maneira de ser homem... E eterno é o silêncio de noite calma Onde, sobre absortos pensamentos altivos, Nasce a grande esperança de viver Somente a olhar estrelas fulgentes... (E vocês sei que não me mentem Como toda esta gente e todo este mundo Que me rodeia sem eu querer... Vocês alentam-me a alma, Fascinam-me com tanta beleza, Dão-me tanta vontade de ver Além destes lugares, de sentir e chegar além... São vocês toda a razão de eu viver Na esperança de imaginar novas vidas, Novas descobertas a caminho da felicidade...) E é tão bom escrever sobre o céu claro que pinto E o céu obscuro que presencio. Ambos pertencem ao universo De ser escritor!... Apre! Vida de infortúnios e de incertezas! Sou mais; e mais não sou do que ser como vós… Álvaro Machado - 23:11 – 07-07-2013

Inversão da dimensão

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A inversão de compreender o que nos rodeia... Desta forma, a ilusão move tudo à sua volta, Entramos na dimensão em que compreender não interessa E sentir muito menos. Viveremos das projecções da mente, da vivência da alma - O que ambas farão na outra dimensão o não sabemos, O que ambas sentirão também não, Mas lá a vida será mais calma. Construir-se-ão catedrais de fabulosa arquitectura, Momentos depois, as mesmas catedrais, desmoronar-se-ão; Tudo virá, tudo irá. Está neste fechar de olhos para a realidade Toda a plenitude do sentimento humano E toda a inconsciência de o inverter.

Vozes inúteis

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Não os conheço; não existem. E, ainda assim, vozes encharcam-me De os pensar, se os penso, com histórias Inúteis tanto como quem as conta. São a paisagem intemporal dos tempos derrotados, As esperanças sem necessidade de as realizar, Os sonhos fictícios de os achar realizáveis estupidamente! Se sonho, também? Sonho e vivo de sonhos que vou sonhando! Não os sonho só porque tive de adormecer e porque é bom - Nem tudo o que sonho é enquanto estou a dormir, nem tudo quanto sonho É enquanto fecho os olhos... - Eu sonho-os sobre a adversidade real e amálgama da vida! Não existem; não os conheço. Se não existem são felizes e não pesam, Não têm de escolher entre o bem e o mal Ou ficar no meio a pender para um deles. A vida é doer Só ao viver E enquanto os achar na inexistência Não os quero conhecer!... Álvaro Machado – 03:07 – 01-04-2013

Bom sonho

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Nunca, nenhum sonho, Há-de substituir a realidade Nem é caso para a substituir. O sonho deve ser visto Como uma fantasia Que se fantasiou na noite passada, Deve ser motivo para desejar Ter mais sonhos assim, Manter-se longe de paradigmas, E não para o tornar real. Real é monótono e cansativo. Não existe prazer nenhum torná-lo real. Um sonho é todo uma verdade, Que uns negam e outros fogem, Que os fazem por esquecer E outros culpam satanás por os invadir, Mas, um sonho, um sonho bom, É roçar entre o divino e a perfeição E pertencer ao paraíso De todos os sonhadores... Álvaro Machado – 22:47 – 25-03-2013

Chuva de leme

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Em nenhum momento a chuva cessa E a noite continua a correr cheia de pressa Em silêncios constrangedores que fazem pesar Num tédio por que ninguém quer passar Ah, a inércia com que me acerquei, Se conseguissem ao menos imaginar! Sou um jovem que nunca pensei Ser e nunca pensei acreditar! Tão novo para o mundo, mas que o vê tão claro Como a água dos rios e dos mares sombrios; Sou tão novo para um pensar tão raro Que transcende todos os navios, E se vai por aquele Mar de Inocências, Que ninguém quer acreditar... E se vim ao mundo foi para recitar A vida de todas as excelências! (Pára o navio e o convés fica quebrado. O marinheiro, que tanto tem navegado, Depara-se junto a mim no leme E eu digo-lhe: "Apre! Infinitamente reme!") Remar é como fugir: não temos por onde ir. Só remam e fogem os inocentes... E tu, marinheiro da inocência, como te sentes? "Ao leme, a remar ao infinito" - disse ele a rir. Álv...