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resguardado homem

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bati à porta, aguardei deus para a abrir... esperei demasiados e longos anos, ao frio, à chuva, usando gastas palavras e sonhos esquecidos... até que me tentei tornar num dos tantos milhares, com vidas normais, a não questionar-se sobre fundamento nenhum... mas havia sempre algo. algo que não me deixava simplesmente viver. suspirava fundo: o vento fizera-me renascer, a saudade chorar, o errante vadio filosofar!... porque, para mim, nenhuma brisa reflecte a mesma sensação, porque, em cada uma delas, eu recrio o mundo, encho-o de novos pensamentos, de novas cores, do tutano da vida! deus..., deus não me abriu a porta, deixou-me à porta e nunca veio... revoltei-me; durante a minha vida inteira abri-lhe o meu coração, nunca a nenhum comum dos mortais, contei-lhe todos os meus sonhos, mas ele nunca veio... cavei uma sepultura então. e até hoje continuo debaixo dela numa incessante solidão!... Álvaro Machado - 13:07 - 08-02-2014

Inconcebível mundo

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O universo existe; e os planetas e as galáxias, Multidões de homens vulgares e esquecidos, Eternas catedrais mórbidas e exageradas, E tudo isto me é ensurdecedor enquanto concepção de vida. Para onde foram os antigos e verdadeiros poetas Que faziam da vida única com suas obras de sentir para lá do possível? Mas onde estão aqueles filósofos sobre o púlpito a percorrer séculos de ideias futuras? Onde está o horizonte preenchido de grandes embarcações com hastes içadas? Mundo? Onde estás, mundo que eu próprio concebi? Ah, este mundo não tem lugar no próprio mundo! E poucos o sonham - poucos, nenhuns, o que for... No meu sonho, então concebido como salvação divina, Encontrarei-os todos, mesmo os que não conheci. Viver do passado, aprendi, é viver mais actual. Álvaro Machado - 19:19 - 16-01-2014

A quem pertenço?

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Eu não pertenço ao mundo. Pertenço à alma de cada coisa que vejo: Se chover, ponho-me à chuva e ao lado de cada coisa que se molha, Se, quando cair a noite, houver tristeza nelas, eu também entristeço… Por isso, serei cada coisa dessas, sentirei o que elas sentem, Viverei como elas, mas sem pertencer a nenhuma delas… As estrelas alentam-me a esperança: Há vida depois de passar por ali, tem que haver! Acredito afincadamente que haverá um paraíso defronte disso. Porque, senão, que prazer teria eu em deambular nessa inquietação, persistente e permanentemente? Nenhuma! E acabaria comigo nesse mesmo instante, pois aqui nada me prende. E ainda que sejam épocas de mais alegria, e mesmo que eu, por agora, engane a minha consciência, (Mesmo consciente do que estou a ocultar à minha consciência) Não pertenço aqui; sinto-me sempre desolado, onde quer que vá… Sinto sempre aquela tristeza amarga, seca, cismática, dolorosa… Álvaro Machado - 01:54 – 25-12-2013

Boémio

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Não tenho porque não querer viver Aquela vida boémia que todos viveram, Em outros tempos, em outras circunstâncias. Talvez embriagado saiba melhor ser eu, Melhor me conheça, mude os hábitos, as rotinas, Que talvez o tédio se finde e as preocupações tomem rota idêntica. Talvez não, também; haverá sempre um senão E o caminho será, também ele, uma eterna indecisão. Se ouso mostrar-me nestas circunstâncias - Em que enalteço o valor nobre do sentimento humano – Deixai-me, pelo menos, mostrá-lo embriagado E assim talvez custe menos, e me ache um artista… Transcendente é o caminho que a febre leva a percorrer… São dimensões ocultas, tão misteriosas, tão perigosas, Que eu, meu deus, que enalteço a toda a hora a tua imagem, Sinto-me só para poder tocar nestas dimensões, A não ser que o meu estado seja não estar no meu estado, E aí estarei somente no mundo meu. Dir-me-ás tu quem escreve estas linhas sobre as margens? O poeta vulnerável e completamente incongruente? Ou o...

Um navio de personagens

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Gostava, às vezes, de não pensar no que está à minha volta. Quem não pensa, não tem a penumbra como horizonte, Tem, porém, outra coisa, talvez superior, chamada inconsciência E a janela do seu quarto é fulgente. Quem não pensa, não vive aquelas horas de agonia Em que até chover nos dói, ou até quando faz sol... Não tem aquelas insónias que só nos deixam mais a sós Do que a nossa solidão nos permite enquanto sonhámos... Mas temos, ainda assim, que viver. Alguém tem que gostar da arte, Criá-la, mantê-la viva, exaltar os artistas... Por isso, eu tomo a vida com uma constante liberdade de pensamento Que me faça roçar no outro universo paralelo deste... E não, não estou sozinho nesta viagem. Também eu criei pequenos pensadores Dentro de mim, para que possam estar justamente na constante busca Do incompreensível, do longínquo segredo que arrastou gerações inteiras! O barco leva-nos para onde calhar. No convés vai Mister Winston , a minha recente criação, Acompanhado de Leonard Sagè , o po...

Lei Fatal.

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Sou um servo das leis fatais, Das quais padeço sem saber porquê. A travessia é dolorosa, não sei por onde vais, Nem sei como a vida se vê... É fulgente, é desfocada? Alegra-nos, entristece-nos? O que faz? Não sei, sou cego; não tenho amigos, nem família. Tenho sorte por sentir o vento... E tenho sorte por supor que o céu existe, Que Deus nos criou, que isto mesmo se chama viver... Parece-me que o amor também está neste mundo, Mas ainda não o conheci... Noite adentro, agora, e a espera é agonizante. Continuo sem saber nada... E o universo inteiro é uma dissimilação Do sentimento galáctico... Álvaro Machado - 22:56 - 02-10-2013

Imitem-no.

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Compreendo – perfeitamente o compreendo – que todos por quem me cruzo, Com mais ou com menos ligação, hão-de partir na mesma época que eu. A mesma oportunidade nos foi dada e o tempo concebeu um tempo équo Para cada um de nós, na mesma altura. Conheço vários da minha época. Uns começaram por ser ambiciosos E acabaram por ficar conformados, frustrados também. Outros têm subido, têm sido um ascendente calculista de aparências, de mentiras, De um extremo que nem o Anticristo ousava vestir: uma pele de cordeiro velha. E por isso a solidão foi o que achei mais sensato a escolher para mim. Cansei-me – juro-vos, amigos, que é verdade – do que circunda ao meu redor… Nunca vi sossego, nem paz, nem felicidade surgindo naturalmente e sem segundas intenções… O próprio sistema e a sociedade corrompe os termos biológicos do ser humano… Inacreditável. Mas a vida foi feita para ser assim: inacreditável em todos os sentidos. Quem sabe se este pensamento, que agora escorre por mim e me inquieta inopor...

Enigmático

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Muitos vivem de histórias, outros de inocência. Todos, porém, vivem escondidos, escondem-se ao virar da esquina, Sobre outro mundo mais triste do que este, Cruzando outras caras mais assombrosas do que estas, Vagueando entre espaços antigos e esquecidos Com o medo de saber quem são. Incompreendidos, desses muitos, acolhem o esquecimento por mágoa Até que a sabedoria e a consciência se acabem por evaporar. Resta-lhes viver. Serem eles o que não são, nem foram nunca. Desfolhar a triste história de vida que ousaram seguir covardemente, Cambalear nas tristes figuras de insontes disfarçados E crer na ilusão para não ter que sofrer. Poucos, desses largos milhares, sentem que é preciso questionar-se para se viver - O que mais tarde se revela inútil, mas um acto lúcido e valente! Das muitas questões que se colocam, dos muitos olhares que se erguem, Das noites passadas em branco e em cismo, Das febres insensatas e exageradamente sentidas como reais, ...

Conversas

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Com a presença da chuva Agoniza, a conversa, entre nós. Sobressaem as mais indesejáveis Conversas, entre nós. Talvez porque eu já não desfruto Dos momentos em que mais teria razões Para desfrutar, junto a quem está junto de mim. E por que o não desfruto? Eu não posso, nunca, responder a isso. A resposta está num patamar acima de mim, Muito mais acima de mim, onde ninguém chega - Está acima das nuvens e do espaço. "O melhor era que nem tivessem nascido" - disse uma voz. Uma voz certa e profética que ensina à humanidade Que este mundo não tem nada a não ser a cismática ideia Do mundo continuar sem nós... Depois a chuva cessa e a conversa abandona-me. Orionte já se foi e há-de continuar triste como a noite. O que agoniza são pensamentos inquietantes Que nem deveriam ser pensados em mim! Que gargalhada impetuosa: deixem-me rir. O que é a vida a não ser uma ironia? Quantos vão e quantos mais estão para vir E hão-de p...