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Desventura insensata

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estou entregue ao ranger do vento à gigante onda que defronte se ergue aos dias às noites ao sistema solar longínquo entrando pela janela d'um quarto esquecido estou entregue a uma qualquer força estupenda que consome toda a minha energia vital esvai-me esventra-me corrói-me para o fundo vácuo e a dimensão e a solidão e a insensatez têm como natural consequência o refúgio o desaparecimento precoce de estar assim entregue Álvaro Machado - 20h05 - 19.10.2017

Desfecho final

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Há uma tempestade fortíssima a Sul. Do meu quarto, pressinto-a e sei qual será o seu rumo. Virá em minha direcção, levará tudo à sua frente - Serão arrastados sentimentos para fora da região, Perder-se-ão pelo infinito do universo, deixará de sentir o coração… Encerro as janelas do quarto e cerro a cortina Para me fazer esquecer que algo trágico está próximo. As nuvens, ainda antes de eu desviar os olhos do horizonte, Escureceram de uma cor mais sombria do que o sombrio. E lembro-me que ficara numa inconsolável tristeza… Levou-me tudo. Tudo o que tinha me foi levado. E não tive força para reagir; eram as forças do destino a vencerem-me. Deus não existe. Porque, se existisse, havia aparecido naquele instante, Impedia que o amor fosse quebrado por uma tempestade, Impedia que a minha vida, a partir desse momento, passasse a não significar nada. E agora não há motivo nenhum no mundo inteiro que me faça crer. Não acredito em nada – senão na morte, senão que todos somos...

Interceptado por Deus

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O quarto é sombrio, é pequeno. E o sentimento que nele se cria É prolixo, onírico, magistral. Passa a ser a minha vida, a noite infernal Tão assim só me queria... Constrói-se em mim uma sensação Que leva o universo à sua formação. Constrói-se-me tudo enquanto tenho uma crescente loucura, Dentro de mim circundam astros, morrem, nascem, multiplicam-se! E se eu ousar desvanecer à próxima neblina, Desvaneço com a poesia no meu coração. Deste quarto nasce todo o pensamento, toda a certeza Que o que virá no porvir será melhor. Acabarão os pesadelos, toda aquela vileza Que sempre esteve bem vivida, sempre bem imbuída de dor Que ninguém entendia porquê. Tudo é p'ra mim extensivo, cansativo, deixa-me lasso o corpo! Deus, defronte de mim, num outro pensamento e num outro quarto Intercepta-me, deixa-me ouvir a sua voz e fico embriagado! Embriagado flutuo entre as dimensões todas que constituem o universo, Transcendente, irreais, impossíveis, completamente loucas! ...

Prisma.

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O quarto, aqui, se transforma Através de sonhos que escorregam Abaixo da janela - e ali, eles, que se ergam E adquiram uma forma… Através de um prisma atónito O quarto imbui-se de sensações, E eu, homem até agora de ilusões, Não sei já o que tenho escrito… Será? Será mesmo que aqui existo? De onde vim, para onde vou, tudo isto? (Eu não sei…) Será que é natural sofrer disto Se, talvez, nem por outra gente sou visto? (Eu não sei…) Álvaro Machado – 11:16 – 03-08-2013