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De um português de Portugal

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Portugal, Por ti já vi homens derramar sangue, Morrer se tal fosse imperativo, E os soluços que as viúvas davam Não foi por não te amarem... Portugal, Por ti já vi homens atravessar o desconhecido, Mesmo contra todos mitos, E se a saudade lhes apertava o coração A bravura fez-se-lhes ir adiante... Portugal, Por ti já vi poetas exaltar teus belos feitos E morrer assim esquecidos como jaspe fria, Pois nunca os ouviste a gritar por dentro A imensa empatia que te têm... Mas Portugal..., És tão cinzento, não tens voz, mal te reconheço assim... És gélido, não tens brio, em ti não se vê esperança... Mas Portugal..., quando voltas? Álvaro Machado - 05h00 - 22.05.2016

Herege sóbrio

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Os pequenos passos que dou Num obscuro ir se me pesam; Parece que de mim não sou E os sonhos se me cessam... O breve respirar defronte É já o universo inteiro a pesar; Vã e solene, feliz que encontre, A vida sóbria sem se embriagar... Dize o mestre aos estatuários da poesia, Aos que lhe corrói o lento deambular, Que alto é quem se revê na heresia De nunca em si acreditar... Álvaro Machado - 12h41 - 31-10-2015

Substância

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Vês? Ali, ao longe, é tudo. É o universo, a verdade crua, o sentimento despido de interpretações. A luz que vês é sábia, é intensa, é virtude... Ela guiar-te-á. Eu sei, a sensação é um audaz abalo. Acaba por fazer ruir os alicerces onde nos equilibrámos... Mas sabes, não posso dar-te a chave, não posso vender-te o mundo como Orionte vendeu Que importância tem isso para ti? Olha para o céu. O céu tem tudo. Vê, sente: inspirámo-nos, condessámos a metafísica, hoje escrevemos com o coração tamanha obra!... Que vale a pena na vida? O indefinido, o incerto, o desconhecido - isso move os poetas, às escuras, na caverna do desassossego servos de todo aquele misticismo, dos devaneios repetidos, do porquê inverosímil... Não sabias que sou cego? O melhor do mundo não é ver, é sentir além-mim, além-ti, além-tudo... Álvaro Machado – 04:54 – 29-08-2015

o mar destruído

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onde está aquele mar da esperança, frenético, independente do céu? onde estão aquelas ondas em quem tanto questionávamos pelo universo? não ouves? ah, eu oiço-o como que ainda fosse hoje: o respirar absurdo do coração envolto nas estrelas, imbuído de sonhos, batendo mais e mais, na ânsia de que o sonho se torne lei dos poetas... mas eu não sei onde estás, não te oiço... estou sentado, velho, esquecido, e tudo, em volta, se tornou difícil para mim... Álvaro Machado - 01:30 - 14-08-2015

à saudade

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estou só para o mundo, para o meu mundo... o senhor whitman e o senhor pessoa partiram há tempo de mais... agora o mundo só me soa a pessoas iguais... todos os génios abandonaram o navio e a viagem da dor... só as minhas saudades ficaram em tudo que está a meu redor... só. e as estrelas de todo universo soam em uma frieza distante... mas aquela luz é tão intensa e brilhante que eu faço de mim um pequeno verso, uma pequena voz que surge em mim num momento bem disperso... por que todos eles me deixaram? inda há pouco tempo éramos um só... conversávamos para além do infinito e riamos do que cada um havia escrito... por que as ondas nos separaram e eu me sinto só?... só de mim e só do mundo. só. dói escrever estando assim. até um dia, amigos, até um dia. escrevam de volta, lembrem-se de mim, e talvez a vida me sorria de novo. Álvaro Machado - 02:24 - 29-06-2014

Inconcebível mundo

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O universo existe; e os planetas e as galáxias, Multidões de homens vulgares e esquecidos, Eternas catedrais mórbidas e exageradas, E tudo isto me é ensurdecedor enquanto concepção de vida. Para onde foram os antigos e verdadeiros poetas Que faziam da vida única com suas obras de sentir para lá do possível? Mas onde estão aqueles filósofos sobre o púlpito a percorrer séculos de ideias futuras? Onde está o horizonte preenchido de grandes embarcações com hastes içadas? Mundo? Onde estás, mundo que eu próprio concebi? Ah, este mundo não tem lugar no próprio mundo! E poucos o sonham - poucos, nenhuns, o que for... No meu sonho, então concebido como salvação divina, Encontrarei-os todos, mesmo os que não conheci. Viver do passado, aprendi, é viver mais actual. Álvaro Machado - 19:19 - 16-01-2014

Pequeno cais

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A ti, Álvaro de Campos Eu também tenho um pequeno cais na minha cidade. Seja ele muito mais pequeno do que o que tens sonhado, Mas dá para lhe sentir o reflexo também. Poucos barcos estão atracados e a ponte é curvada. Seja ele muito menos luminoso do que o que tens sonhado, Mas dá para lhe sentir algo de especial também. Pode não ser melhor do que o teu, pode não o ser. E pode ser menos do que o teu, porque sou eu a escrever. Pode ser uma ode marítima menos contextualizada… Ah, mas que nos interessa isso afinal de contas? Eu passo perto do cais todas as noites e penso em ti E nas razões para teres sonhado com este cais também… Quem me garante que já não nos cruzamos nele? Quem nos diz que já não navegamos nele? Eu e tu, noutros tempos, noutros poetas. Álvaro Machado – 21:56 – 04-02-2013

Cormac

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  Perdidos em vão e à sorte do Destino, Esquecidos por tudo e todos, Somos os poetas do Meridiano de Sangue Isolados, porque assim o quiseram. Ermos e inertes lugares, Povoados apenas por os desventurados... Florescem e frutificam os pomares E quantos dias são por nós passados? Ah, que é doloroso deambular ao azar! E o farrapo do miúdo se lhe desnorteia! Quantos mais estão para vir? sabe ninguém, Ninguém é certeza de vinda. É o despovoado bebedouro dos camelos Que lhes arrefece a pressa da vinda: "Pois vide vós o averno que vos espera Quando mil tochas vos marcarem o rosto!" Lhe atirava com infâmias ainda no porvir - Atiravam-nos com as culpas de quem sonhou Com tudo o que não podia ser seu, Atiravam-nos com a má sorte de quem amou... O porteiro da antecâmara, desgraçado ele também. Desafortunado como seus compadres poetas, Que foram sonhando e foram-se perdendo Até ao lugar esquecido do Meridiano de Sangue. ...