Nevando corpos
Nevava junto à casa a neve de dois corpos Arrastados pelo chão gélido, enevoado. Ali todos os segundos contavam uma história E o rascunho, apaixonada neve, era o sorriso Como num grito, das mil palavras ditas, Um breve suspiro contando segundos Que passavam enquanto a neve descia Sobre os dois corpos imotos Ambos fumavam um belo cigarro Duradouro até à madrugada seguinte... Ambos dissolviam o fumo nas veias E filosofavam ignobilmente Ele tinha apoiado o braço no seu pescoço Encostando-lhe à cabeça o rascunho - Que levaria em conta o amor nutrido; E avançou de uma vez só com a voz: «- Quando neva confunde-se-me a razão, Por não saber o que sentir... - Quando neva iluminas a minha alma Como se na neve morde-se os lábios» «- É assim que te deslumbro, mas encantado Eu grito à luz que me viu nascer algo mais Grito de amor, que não possuo, e grito de dor Contigo ao meu lado!» Caía ainda neve posterior à casa e aos dois... ...