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Deserto do eu

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De um deserto imenso onde o que nos vem de frente é nulo e a esperança se perde no passar uma pequena poeira levanta. Contemplo cheio de fervor o trajecto que ela leva, incoerente no arado onde vai, p'ra o indefinido da alma... E achei que fosse tão fácil quanto esta poeira no levantar o encontrar-me, o conhecer-me, o saber-me quem sou... Álvaro Machado - 22:04 - 14-11-2015

Perda de tom

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Lenta e drástica vem Num soar disperso E se me pesa, pesa-me tão bem Como que a todo o universo E a curva da esquina será indefinição Em esse sempre eterno e fiel; Servos leais que nunca vêem no não O rodar livre de um carrossel. Assim são os que nas montanhas se refugiam, Leis esquecidas, vácuos desertores, Os poetas que nesse virar de esquina escreviam Insubmissos e inatos sonhadores!... Álvaro Machado - 14h58 - 10.08.2015

Onírico papel

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Dos sonhos que construo à escuridão de onde me sustenho p'ra toda a vida vou subindo cada degrau vão até que a chuva lá fora se torna pressentida e no horizonte surge um clarão... Surge não sei de onde, não sei porquê... Qualquer coisa de mundano ergueu um homem que nada vê onde tudo vem em seu engano e por isso em nada crê... Rasgo o papel. Os versos morrem-me ainda no sangue. E no meio da mágoa onde um poeta se há-de esconder escurece, perdem-se os sentidos, e exangue vejo a lua do outro lado do cais a desaparecer e com ela também a mim deixarão de ver... Álvaro Machado - 03:01 - 30-05-2015

tão-só olhar

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só queria olhar... olhar e nada ser... ter de mim um vasto mar e um destino a desconhecer... mas é tão grande saudade que em mim vem desaguar... e é uma dor de tamanha intensidade que só me faz chorar... o sentido de não o ter me deixa à margem de, na nau, em vão percorrer essa viagem... o porto é o bater do meu coração... as ondas erguidas meu o é amar... o que resta é tão-só canção do distante navegar... e eu só queria ter olhado, olhado sem nunca ter existido. Álvaro Machado - 14:38 - 12-10-2014

leviana dor

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um vazio torpe alastra em mim. subo, com peso de alma, as escadarias da indefinição e do vácuo do meu ser... a consciência há-de tomar dos errantes passos dados o obscuro sentir que dará fim aos meus dias... e o frio e a sensação de estar só ecoam como se fossem toda a razão... mas eu nunca abandonei a dor que tão persistia em permanecer... Álvaro Machado - 15:33 - 28-09-2014

canto louco

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do cimo das estrelas perguntas-me se estou bem? sim, estou. agora estou. mas sinto-me acabado, sabes? uma consciência desajustada à minha alma jovem abala-me por dentro. fico derrubado. entristecido. e sabes, às vezes, sinto-me melhor, chego a pensar que poderia ter vencido todo o mal que nos acerca o coração e corrói por dentro.... mas depois - e que me perdoe o senhor - o sentimento longínquo toma o seu sombrio ritual... o coração começa a doer quando começa a chuva a cair... o verso ergue-se, começo a escrever e, sem parar, como tudo em minha volta, começo a enlouquecer que faço? que sou? que quero? espera. não sei responder a questões tão simples... Álvaro Machado - 21:39 - 18-09-2014

carta de refugiado

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sentir? o céu escurece. os sentidos caem para o mar ensanguentado. sentir-me português, dizias-me? basta olhar em volta: uma paisagem de terra distante faz-nos não ter pátria, faz-nos esquecer o espírito guerreiro, (os tais doidos varridos caralho!) que haviam entrado mar adentro com naus a apodrecer e a cheirar mal... eu vivo num esquecimento. fui esquecido pelo tempo, o amor abandonou-me muito cedo, o mar soltou a ira para meu desaparecimento. que te hei-de dizer? não sei quem me escrevo, os dias incomodam-me, as rotinas corroem-me, a vida atormenta-me... e só me resta a morte, essa, de tão natural, alivia-me do flagelo... tudo o resto deixa-me deprimido. já tudo se tornou igual, mesmo o inesperado já o havia esperado... mesmo uma voz diferente, um rosto desconhecido, na minha alma soam-me repetidos. e isso, creio, para um jovem como eu, é já como se fosse um fim precoce. o por termo à minha vida nunca me intrigou. tornei-me um espelho estilhaçado com ...

Mito da existência

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Sou eu, meu amor. Sou eu. Sou só eu e o quarto abandonado Que foi de um só pensamento que se esqueceu Quando mais devia ser relembrado. Nunca tenho nada onde me agarrar Senão à chuva e ao vento e às lembranças que vêm do luar. De resto, que fora de mim, que é de mim? Não faz nenhum sentido p’ra onde vou, nem de onde vim… Se eu pudesse mostrar-te tudo o que estou a sentir… O que grito por dentro com tanta indefinição… Tudo o que olho no acaso e que consigo pressentir Com uma tão grande e tão inútil noção… Faz-se do obscuro do que move a corrente da alma Uma clara névoa que nunca hei-de entender… E, sem nunca saber o que estou a ver, Virá a onda de o mar p’ra eu partir… «Sou eu, sou eu!» Disse alguém que do mar veio E pelo mar também desapareceu. Álvaro Machado - 01:45 - 25-04-2014

Questão simbólica.

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Amanhã haverá sol, viverei? Continuará a passar-me o tempo pelas mãos E eu a fazer-me de esquecido, deixando-o passar? Continuarei a passar como passei, A sentir assim os dias vãos Na expectativa de acabar ou continuar? Na incerteza que se nos vem atravessar Cremos no certo, fazemos o errado. Iludidos com o estar a passar Achamos que se deve continuar No presente, esquecer o passado Não fazer perguntas, apenas consentir e calar. Mas a minha alma, essa, será intemporal. Afincadamente constrói-se-me uma espiral Sonhos tenebrosos, viagens no submundo, Confusões no pensar de onde sou oriundo... Uma brisa acorda-me, é novo dia em Portugal E no resto do mundo! Álvaro Machado – 01:43 – 22-02-2014

Navio perdido

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Sou um navio perdido Na calha da sorte do mar Para trás deixo a terra, o meu lar, Tudo aquilo porque tenho vivido. Estou na corrente da indefinição - Seguro e ergo a haste, Vou ao leme, o mar que não arraste Para o indefinido o meu coração. E se eu me tornei assim Foi porque quis alguém… Calhou-me este destino E a mais ninguém… Sou um navio perdido Na eterna saudade; Porquê tanta mágoa sem sentido Na minha eternidade? Álvaro Machado – 11:48 – 02-02-2014

Isolado.

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Muito tempo; e eu não sei o que é lá fora… Não sei se os dias são dias Nem se as noites são noites; Não sei se barulho ensurdecedor E pessoas entre ele existem… Haverá luz? Haverá sombra? Como outrora? Haverá humanidade para lá disto, Atónita sinfonia do desalento? Aqui é tudo calmo. Os homens que me vêm ver são acolhedores, simpáticos, Mas longínquos quanto às sensações e aos sentidos… Tenho um vasto oceano e uma tenebrosa corrente Para a minha pequena nau enfrentar: Indefinição, vácuo, confusão de sentidos!... Álvaro Machado – Sem hora - 29-01-2014

Frustração.

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Não me parece que consiga Dar uma rota à minha vida Nem achar uma nau e um destino Que possa percorrer. Cada vez que me ergo Para saciar o horizonte indefinido Me deixam a cair num precipício fundo e obscuro Onde ninguém ouve este coração dócil Que pede só que o salvem... Forças as não encontro Debaixo do manto de solidão e de medo Que vive dentro de mim. Demasiada frustração mágoa saudade dor Para fechar os olhos ao presente... Então acordo no meio Em uma praia lusitana perdida no tempo Preso ao cais com um peso na alma E não me posso lançar ao mar! Álvaro Machado - 03:19 - 20-01-2013