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Utópica vida

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Sou um vazio de pessoa que vê beleza em tudo, Sou uma paisagem sem vida que confunde Se realmente existe este espaço, este tempo, Ou se vivemos apenas o pouco disso. A utópica perfeição é a ironia por que fomos criados. Devemos servidão àquela estrela chamada sol, Devemos olhar cego àquele satélite chamado lua, Devemos amar incondicionalmente a imperfeição, Porque ela é a água que transbordámos todos os dias De lágrimas, de devaneios incompreendidos, de dor! Nunca atingimos a perfeição; ela fica-nos utópica Como se fosse utópico ter esperanças. É ser vazio de pessoa que assisto à beleza que me rodeia E tudo me parece perfeito, único, sensacional! É ser paisagem esquecida que confundo se vivo mesmo Esta vida utópica e intemporal! Por aqui passou o vazio de pessoa e a paisagem confundida dela. Álvaro Machado – 21:45 – 20-01-2013

Nada de mim é meu

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Nada é real, nada é dor, nada é alegria Neste mundo tão cheio de quase-verdade E tão vago de quase-sonho; Nada lhe é certo, Nada lhe é certo de ser, nada lhe chega perto de ser. Eu não sinto no mundo real nada por ninguém, Não partilho das indecisões de ninguém, Não ajo a bem de outros... Fujo apenas, fujo além Enquanto lhe souber caminho e achar-lhe rasto! E dirão as estrelas que fuja com elas para bem longe, Para uma nova esfera de gases mágicos, e intensas almas Viverão como eu, tão prendidas do real, tão prendidas a nada! (Mesmo o facto de escrever me entristece; não tenho cura...) Bem longe disto, dir-me-ão elas! Tão altivas naquele céu! Tão fulgentes na noite! Tão longe da percepção! Bem longe disto... Bem longe deste nada que sofre na dor De nem sequer existir dor; do vazio da alegria que não existe! Se me acho escondido entre folhagens sombrias? Se me acho cobarde entre parecer o que não sou? Apre! Mais do que isso, acho mostrar...

Jardim espiritual

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Percorre-se de silêncio o jardim espiritual Da minha alma - Talvez o vazio do espaço, E a natureza distante o deixem assim: triste. Percorre-se de solidão a alma que o atravessar; Parecer-lhe-á familiar em instantes de reflexão, E parecer-lhe-á nefasto quando o supor. (Tenho pouca noção do espaço e do tempo, Tenho tão pouca noção do que realmente sou E do que realmente posso vir a ser.) Não vejo pessoas, não presencio árvores, nem vento, Apenas saúdo a noção da esplanada vazia e a distância Das realmente pequenas e inúteis pessoas dentro do café. E os passos com que percorro o espírito do jardim Também não se ouvem, nem os gritos do coração revoltado! Apenas exalto e extasio as coisas dentro de mim. (Imagino que me oiças, imagino que me vejas deitado Sobre o banco a pensar nisto; pensa também no que fui, No que sou e no que poderei não vir a ser...) Álvaro Machado – 19:46 – 28-12-2012

Perdição

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Durante a noite o vento levou-me a alma para um lugar Escondido de todos estes lugares do mundo, de todos os cantos Estrelares e de todas as preces que me possam dar Para fazer de mim um quarto de encantos E eu olho-te altivamente, ó céu mais obscuro que a escuridão, E espero-te impaciente para que desças sobre este turbilhão. Vem que és bem-vindo à minha alma e ao seu invejável mistério. Vem e vê como escorro por debaixo do rio. No meu quarto só oiço vento forte e por vezes exagero. No meu quarto só oiço o desespero. No meu quarto só há Deus, só há alguém abandonado. No meu quarto sou só eu isolado. E há rios, e há navios, e há céus, e há a sensata impressão De estar a ouvir o vento noutro lugar do meu coração. E há noite, triste sentida no quarto, e há sombra, vagueando Como se no funesto quarto fosse pintando, Até que vai surgindo uma tela desfigurada cheia de transeuntes, Uns são tão reais na linha que liga loucos e inocentes, Ou...

Ânsia

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Inutilmente há um dia lá fora como que esperando Que atravessem as ideias e a certeza de ele existir, E inutilmente há um nevoeiro cerrado, e há-de vir A certeza plausível de estar pensando... Estrelas múltiplas preenchem o obscuro céu. Sol, fumo sobreposto ao ar, olhar meu, E uma nova forma e um novo espaço voltará Para um dia relembrarmos o que aconteceu... Mas esse dia não aconteceu por acaso, Assim como vulgar não foi o espaço. Acontece à vida um cruzamento de personalidades E sem querer fui dia e noite de ansiedades Tudo vale enquanto dura o sentir, Tudo se mantem enquanto ninguém contestar, Tudo será nosso se tudo isso existir E se em mim o caminho encontrar Mais do que isso é sagrado e superior. Para além do meu existir existe Deus. E os sonhos são somente meus E do meu despedaçado interior... Álvaro Machado – 17:45 – 09-12-2012