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Olvidar na hora morta

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Olvida, defronte, o inda vermelho do poente que magistral e brilhante contemplá-lo, nunca mente... Mas dêem-me um momento, irmãos, um momento somente!... Onde vêem arte se o que há é fingimento mão morta, cabeça cortada, alma presa à corrente? Sim... escutamos o silêncio do pós-poente, além-olvidado, pois não há mestria nenhuma em sofrer pelo passado (estarei, nestas horas de tédio, esquecido do real?) do porto, ainda porto, do porto desencontrado... Poesia obscura. Soltos versos, funestos, inócuos, absurdos como afinal sois todos vós, de poesias baratas no bolso do lado, romances escritos por romancistas surdos... Ah, causais-me enfado!... Sim, sim, outra vez: são duas da manhã, nenhum de vós me vai ler... Puta que vos pariu. Não quero. Não me vendo às horas badaladas onde quem lê nunca lê no ler para além das frases dadas... Eu cá prefiro só escrever, escrever..., e endoidecer!... (O resto são cartas velhas e cansadas.) Álvaro Machado - 02h03 - 18-05-2016

Cambaleante

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Para onde me vou deambulando, Presente na consciência de ser triste, Quando o meu horizonte nunca existe Nem eu sei por que vou procurando? Vagueio entontecido quando não sei que rumo tomar E fecho toda a mágoa de viver numa noite distante, A passo que, sombrio, se me faço almirante Quando o rumo é cambalear... Não tenho, assim, por que viver Num caminho já há muito traçado Se me sinto tão desolado Foi por que me vejo a alma a perder... E toda a alma que assim escrever Como que sentido tudo a desabar Pensará que só é preciso viver E a poesia deixar naufragar... Álvaro Machado – 20:02 – 05-08-2013

Prisma.

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O quarto, aqui, se transforma Através de sonhos que escorregam Abaixo da janela - e ali, eles, que se ergam E adquiram uma forma… Através de um prisma atónito O quarto imbui-se de sensações, E eu, homem até agora de ilusões, Não sei já o que tenho escrito… Será? Será mesmo que aqui existo? De onde vim, para onde vou, tudo isto? (Eu não sei…) Será que é natural sofrer disto Se, talvez, nem por outra gente sou visto? (Eu não sei…) Álvaro Machado – 11:16 – 03-08-2013

Encontro

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Procura na saudade um termo Que não vejas, que não toques, E que lhe sintas a forma do rosto Que nunca mais tocarás Acha na saudade o resto do corpo Que não recordas (será que o recordas?) E sente-lhe a ternura, o encanto que tanto adoras. Ele nunca mais voltará. A carta perde-se de tanto esperar - Uma das tantas que escrevi durante anos a fio - Por quem não sabe onde me encontrar. Quem escreveu soube de sua perdição Muito antes de o procurarem - A si e a sua solidão. Álvaro Machado - 21:14 - 09-01-2013

O nada de coisa nenhuma

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O que tenho escrito não é nada. Nem tu, nem ninguém é nada. É como que um universo dissimulado, Sem nada para esconder. Apenas tenho reparado em tanta coisa, E escrito vagamente sobre coisa nenhuma... Mas porque é feita dor o meu reparo Se o que eu quero é desaparecer? As manhãs de sol suposto, os fins de tarde assombrosos, Os nevoeiros do meu pensar, não são nada. Nem o universo consegue ser mais do que nada. E é assim que eu ando e penso como pessoa, Que sendo um nada ou coisa nenhuma, Não é mais do que uma pessoa... Álvaro Machado - 14:51 - 16-11-2012