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Manto de dor

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É tudo vento - e vento é coisa desinteressada. Para quê névoa tamanha na estrada, Se o único que tem lamento É doido e não sabe nada? Ninguém vê lugar nenhum defronte - vê o vento, e é cego e mudo e inexistente. Mas por que se hão-de importar com quem sente? Interessa é saúde e não quem confronte, É só comum o torpe que mente. E é assim, e é assim por isso, Que sofro eu tanto. Cobre-se o homem desse manto E nele é como feitiço: Engana e trai e nunca tivera encanto. Álvaro Machado - 01h59 - 10-11-2015

Anárquica noite

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Não me obriguem; porque se obrigarem eu não o faço - Para mim dever há só um: ouvir esta noite assombrosa Por onde passa o vento frenético, de cólera impiedosa, E a escuridão é o caminho que faço e desfaço No mesmo instante, no mesmo espaço. Neste momento de vida, talvez precoce e imaturo, O oceano empurra para a mesma direcção - Que outros vão percorrendo em vão, Outros, esse tais, que da vida soltam inertemente revolução - De caminhos que para mim não procuro. Só esta noite me conhece, só este vento Intercepta a voz, o verso, a inquietação em lamento Com que eu carrego de mão ao peito, Por um sentimento trágico e sem encanto. De fora? Pode brilhar, e pode até iludir. Nunca disse que mais ilusões não estivessem para vir. Só que ilusões não passam de ilusões, e esta noite existe Como o vento e a minha alma. (Ó alma, por que me fugiste?) Álvaro Machado – 23:14 – 29-04-2013

Peso do rio

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Por que eu peso tanto, Mesmo fazendo para o esquecer? Por que o rio continua a escorrer Sem nenhum encanto? Tenho vagos silêncios em mim. O encanto é quando estou a passear Pelo som sofrido das águas paradas E parece ser águas de mar... Mas não. Sou eu sozinho a vaguear! Sou eu perdido, entregue à sorte... Por que hei-de ser eu a pesar E ser o menos forte? Só os deuses sabem o mistério, Só eles sabem realmente o que é viver Eternamente como este rio Que aparentemente nunca há-de desaparecer. Álvaro Machado – 22:30 – 04-03-2013

Elementos

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É o sol, é sol! - és tu quem mo diz, Quando te vejo estendida pelo riacho Como uma magistral nuvem clara Cheia de pureza inerente a si. É o sol, é o meu encanto! O escorrer de água submisso: eu! E se lhe intrometem nuvens tenebrosas, O que é de mim é chuva tempestuosa! É o mar, é o mar! - és tu quem mo diz, Quando de uma falésia se te vejo o rosto Esbranquiçado e o vestido transparente Falésia abaixo como em sonho... É o mar, é a minha perfeição! Ondas enfurecidas pela devoção a mim! Navios e pessoas arrastadas pelas águas Inerentes a mim! Fui tudo isso! - Uma figura que encarnou a natureza, Os seus elementos; uma figura... Álvaro Machado – 12:54 – 26-01-2013