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Herege sóbrio

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Os pequenos passos que dou Num obscuro ir se me pesam; Parece que de mim não sou E os sonhos se me cessam... O breve respirar defronte É já o universo inteiro a pesar; Vã e solene, feliz que encontre, A vida sóbria sem se embriagar... Dize o mestre aos estatuários da poesia, Aos que lhe corrói o lento deambular, Que alto é quem se revê na heresia De nunca em si acreditar... Álvaro Machado - 12h41 - 31-10-2015

Cambaleante

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Para onde me vou deambulando, Presente na consciência de ser triste, Quando o meu horizonte nunca existe Nem eu sei por que vou procurando? Vagueio entontecido quando não sei que rumo tomar E fecho toda a mágoa de viver numa noite distante, A passo que, sombrio, se me faço almirante Quando o rumo é cambalear... Não tenho, assim, por que viver Num caminho já há muito traçado Se me sinto tão desolado Foi por que me vejo a alma a perder... E toda a alma que assim escrever Como que sentido tudo a desabar Pensará que só é preciso viver E a poesia deixar naufragar... Álvaro Machado – 20:02 – 05-08-2013

Franzino

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Quase que o vejo, com um tom claro e franzino, A deambular pela cidade como um esquecido Que põe em si toda a crença que há em Deus E quase que o vejo, enquanto espera. Com um passo pensativo e preponderante Que sempre espera por um sinal divino - Brilham os seus trajes de um interior ardente, Brilha, o homem, claro e franzino... Que não há-de chegar nunca, porque é quase homem. E os quase homens não são a colheita mais nobre. Ainda assim, vejo, quase, uma crença fiel e cheia de amor De um homem que anda danado com a vida - que horror! Cai-lhe, as vestes, só com o sopro do vento, Escorrega-lhe, o rosto, em profundas lágrimas - Tão homem não podia haver! Tão nobre em espírito! - E, ainda assim, só assim, tem ar de ter estado no convento, Quem sabe horas antes de o estar a ver fosse ele padre... E a sua crença tenha, afinal, uma veracidade incontestável... Continua caminhando. Franzino e claro como uma manhã clara. Quase que o vejo, ...

Cormac

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  Perdidos em vão e à sorte do Destino, Esquecidos por tudo e todos, Somos os poetas do Meridiano de Sangue Isolados, porque assim o quiseram. Ermos e inertes lugares, Povoados apenas por os desventurados... Florescem e frutificam os pomares E quantos dias são por nós passados? Ah, que é doloroso deambular ao azar! E o farrapo do miúdo se lhe desnorteia! Quantos mais estão para vir? sabe ninguém, Ninguém é certeza de vinda. É o despovoado bebedouro dos camelos Que lhes arrefece a pressa da vinda: "Pois vide vós o averno que vos espera Quando mil tochas vos marcarem o rosto!" Lhe atirava com infâmias ainda no porvir - Atiravam-nos com as culpas de quem sonhou Com tudo o que não podia ser seu, Atiravam-nos com a má sorte de quem amou... O porteiro da antecâmara, desgraçado ele também. Desafortunado como seus compadres poetas, Que foram sonhando e foram-se perdendo Até ao lugar esquecido do Meridiano de Sangue. ...