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Um a um vamos caindo Num abismo sem fim Às portas fechadas na chuva turbulenta Giram corvos numa dimensão tremenda Um a um, engolidos por razão qualquer, Da vida vamos indo Nessa estrada feita em ermo Razão parva de corações sentindo E a mágoa de qualquer um? Colocam-na nos deuses dispersos Girando e voltando a girar em mim Até brotados os versos. Álvaro Machado - 01h42 - 13.09.2017

Vazio

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Fecharam-se as janelas, as portas da cidade. As pessoas sucumbiram da rua. A luz que agora é névoa não tem felicidade E a verdade é dura e crua. Chegou o frio. A ponte não tem barqueiro que a queria navegar. Escorre-se uma saudade pelo rio Que não sei onde me está a levar... São muitas dúvidas, suspensas no céu aberto, Quando relembro um rosto, uma voz... Será Deus, será que no meu sonho o tenho descoberto Ou seremos só nós? Álvaro Machado - 23:50 - 11-12-2013

Boémio

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Não tenho porque não querer viver Aquela vida boémia que todos viveram, Em outros tempos, em outras circunstâncias. Talvez embriagado saiba melhor ser eu, Melhor me conheça, mude os hábitos, as rotinas, Que talvez o tédio se finde e as preocupações tomem rota idêntica. Talvez não, também; haverá sempre um senão E o caminho será, também ele, uma eterna indecisão. Se ouso mostrar-me nestas circunstâncias - Em que enalteço o valor nobre do sentimento humano – Deixai-me, pelo menos, mostrá-lo embriagado E assim talvez custe menos, e me ache um artista… Transcendente é o caminho que a febre leva a percorrer… São dimensões ocultas, tão misteriosas, tão perigosas, Que eu, meu deus, que enalteço a toda a hora a tua imagem, Sinto-me só para poder tocar nestas dimensões, A não ser que o meu estado seja não estar no meu estado, E aí estarei somente no mundo meu. Dir-me-ás tu quem escreve estas linhas sobre as margens? O poeta vulnerável e completamente incongruente? Ou o...

Terrível de viajar

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Terrível é não sentir Que o mundo me perdeu... Ir como quem esqueceu De viver antes de partir... E eriça-me olhar Monalisa , Subitamente. Focam-me os olhos de cara lisa E quase morro repentinamente. Talvez o génio italiano Sonha-se com aquele olhar; Talvez fosse a si próprio retractar Com um rosto mais plano. E viajo nesta quase madrugada Até a Itália renascentista. (Revejo-me nesta época por mim sonhada) E viajo comigo um idealista, Que vai indo e procurando Por entre o medo de existir As dúvidas continuam-lhe cismando Se deus há-de mesmo vir... Álvaro Machado – 00:05 – 01-02-2013

Entre a distância do homem

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Tão longínquo é o homem de si próprio, Que quando lhe desvia um olhar, e o observa, Dá a instância fulminante de desespero e percepciona-se A real distância de si para si. Pensando bem: se o é realmente distante, porque há compaixão? (Eu sinto compaixão por quem me cruzo, possa ele ser o mendigo Das minhas noites ou o artista dos meus dias; somente há lepidez Quando caminho peculiarmente dentro de suas mentes) Nós devíamos ser a proximidade do amor de um abraço caloroso, De um saudoso beijo sem época, de um grito avernal aos deuses! Nós, homens e mulheres, poderíamos ser a apoplexia irónica De um mal-estar grotesco, e aí talvez houvesse proximidade! E ninguém faz da proximidade um afecto, e por isso somos a distância Dos afectos impiedosos, dos sentidos iludidos e de amores - o sentido É de que amar nos perturba a acção - quase-sentidos de não sentir. (Porquê a compaixão no longínquo homem?) Longínquo homem, por que razão és frio como o ...