Mensagens

A mostrar mensagens com a etiqueta Cismo

Decapitação solene

Imagem
Do cimo, não sei, perto do cimo, não, nada disso! Qualquer cousa, ali, acolá, mas no cimo não quero! Oiçam, calem-se, mexam-se; a cidade saí p'ra rua não saindo! Entontecido, enternecido, quieto, fiel à morte, mas nunca vivo! Se me revolto, já não me revolto, tudo quis e agora nada mais... Parem! Dai-me a decapitação, senhores! Só eu é que vejo, não, não acredito!  Álvaro Machado - 03h06 - 17-11-2015

De um terraço…

Imagem
Estão nuvens cerradas, o dia é cinzento e chuvoso. Para que hei-de então voltar a vê-lo da janela De onde se concebem todos os meus sonhos Se eu me sinto triste se voltar a estar lá?... Fico estagnado, com as mãos por dentro do meu sobretudo, A olhar para o horizonte defronte, frio e tão triste, E por entre todos universos que fui criando, sempre muito dispersos e irreais, até que penso: «És tão dolorosa. Dói-me que sejamos todos tão distantes de ti!» Com o coração eu consigo alcançar-me até à varanda do outro quarto, De onde a vida se toma por sublime, E consigo, sozinho, perscrutar a voz do Diabo ao fundo da minha alma: «Peço-te: esquece tudo; deixa-te ir na perdição. Senão, o que é isto?» Mas lembro-me perfeitamente que estava a sonhar, havia adormecido no terraço. No meu sonho tu morreste, sabias? Morreste e eu senti suores frios; amo a humanidade! E penso agora porque todos nos questionámos, penso agora porque nada sabemos de nada… ...

Cismo clássico.

Imagem
Cismo! Não posso ouvir Tchaikovsky! Não posso sair de casa, senão alucino, Crio uma imensa ópera emblemática E o zumbir dos carros tornar-se-á, ele mesmo, numa obra d’arte! Não posso! Nem quero, aliás. P’ra que irei tornar cada passo dado por transeuntes Numa magistral e ao mesmo tempo destruidora melodia? Ah, eles não merecem! Está tudo sem alma para a arte! Prefiro sofrer sozinho, sob a pena da escuridão do meu quarto, Com a janela entreaberta, o fundo clássico entrando impiedosamente na minha alma - Que me perturba de uma maneira impossível – E a saber ter a perfeita consciência que me dói viver… Dói-me. Não consigo parar de me preocupar com todos os transeuntes, de sofrer com eles… Não consigo parar de pensar no nefasto futuro! Olha o maestro, como ele se ergue amando inteiramente a melodia, Cismático, emblemático, apaixonante! A apoteose chega-me agora, todos os instrumentos se misturam, Chegámos à perfeição, à arte de todas as artes. Levanto-me. Ergo as mãos, ajoelho-me para es...

Luas e noites

Imagem
De há muitas noites A vida passa e não pára. E tu, sempre que me encontres, Continua na viagem da vida Sem parar. Se me vires, sou apenas alguém Que, em vez de viver, esperou. E esperou sozinho, sem ninguém, No demorado corredor das incertezas Para sempre. A lua está poisada, Poisada durante a noite. E enquanto vais, nessa longa caminhada, Espera por mim, estou no convés, em cismo, Como se nada disto existisse. Álvaro Machado - 23:12 - 02-07-2013

Sucessão abstracta

Imagem
É quase paradoxal compreender Os mundos de outros mundos A não ser este, porque nem este é Compreensível de todo. Há a sucessão de novos universos A nascer, para além do nosso, E quem sabe não possam estar p'ra nascer, agora, Milhões de esperanças e desejos. É permitido com que sonhe isso, Porque me foi concebido esse dom De sonhar como que esquecendo O mundo em que estou vivendo. E eu deparo-me com a minha casa, Acendendo velas para confraternizar Com os diversos universos que estão para chegar Mesmo que não existam. Dá vontade de os sonhar, porque me parecem impossíveis de sonhar! Dá vontade de os desejar, de os querer ali, naquele momento, Todos eles só para mim! E talvez o custo dessa cismática abstracção Seja a perda da realidade como realidade, Torná-la tão grotesca que já o universo não faz sentido, Torná-la desprezível que já nem nós fazemos sentido! Que o mundo inteiro desabe e nós trocemos dessa situação Com...

Contestação interior

Imagem
Na minha contestação interior, na minha revolta, Sinto não estar certo do que vou ser. As águas mexem mal, a vontade anda à volta, E eu já não sei o que quero ser. Posso eu ser apenas anarquista? E não querer ser mais? Eu assim seria feliz com todos e não me revoltaria com ninguém... Ó Destino de águas paradas, por onde me levais? Apenas quero ser e não ser mais do que ninguém... Quando olho cismático para os pormenores que me dão, Sinto como a luz daquele restaurante uma solidão Que só eu e a ela podemos sentir, porque é minha e dela; E o fumo que faz no ar é a razão de eu sê-la. Vou em cismo todo o caminho: quererei em viver aqui? Nesta imitação imperfeita do homem? Não vale a pena, Porque a perfeição está num universo longe daqui - E isso é que me deixa com pena! (Mas isto não é nada, nem contestação deve ser; Contestação é aquele vadio que me pediu para comer... Isso é que é uma contestação interior que posso crer, Porque isto é a...